Histórias do Cinema

Os Autores da Comédia à Italiana

Sordi, Risi, Tognazzi e tutti quanti

Aquilo que a partir dos anos 60 passou a ser conhecido como comédia à italiana começou a colher, em cima do acontecimento, as transformações do italiano médio e popular no pós-guerra. O género, ou subgénero se o considerarmos herdeiro da lição neo-realista, nasceu da rara confluência entre os hábeis argumentistas inicialmente surgidos da oficina de Sergio Amidei (a grande figura parental da comédia), uma plêiade de realizadores capazes de captar com acutilância as pequenas crises das suas personagens quando atiradas para fora dos seus espaços de conforto — sejam eles a casa, o bairro —, e uma geração de actores de génio, quase todos de formação clássica, que vestiram a pele do homem comum, que sobrevivia como podia às rápidas mudanças sociais provocadas pelo furacão do milagre económico.

A comédia em Itália tem pergaminhos: a commedia dell’arte ou teatro de variedades são antepassados óbvios da commedia all’italiana, para não ir mais longe e referir as raízes literárias — Petrónio ou Boccaccio são os nomes que se impõem. Essa herança eclética talvez explique a riqueza do género, a facilidade com que passa dos gags do filme de episódios à continuidade do tratamento longo, a quase imperceptibilidade com que o riso leva à lágrima, como a comédia termina em tragédia.

A selecção do Close-Up deste ano reúne argumentistas responsáveis por algumas das obras-primas do género (Rodolfo Sonego, Zavattini ou Ruggero Maccari), alguns dos actores mais emblemáticos (Sordi, Tognazzi, Sandrelli), e a batuta de nomes maiores como Dino Risi ou Pietro Germi.

Carlos Nogueira

Negócio à Italiana

de Vittorio De Sica

Dia 10-10 15h30 (PA)
Il Boom (Itália, ficção, 1963, 95 min) M/12

Negócio à Italiana (Il Boom) tem lugar durante o “milagre económico italiano” do pós-II Guerra. Num momento em que muitos acumulavam enormes quantias de dinheiro, Giovanni Alberti (Alberto Sordi) não consegue o suficiente para satisfazer os gostos exigentes da mulher e as necessidades de uma família que vive para lá dos seus meios. Uma comédia negra de De Sica e uma dura sátira à sociedade italiana pelo modo corrosivo como olha para o consumismo, que se materializa no acto extremo (o “negócio”) em que o protagonista se vê envolvido com a intenção de manter o elevado nível de vida familiar durante o “boom” económico. Cesare Zavattini assina mais um excelente argumento filmado por De Sica a que Alberto Sordi confere uma sublime expressão.

Anúncio de Casamento

de Antonio Pietrangeli

Dia 11-10 21h30 (PA)
Presença de Nuno Sena
La Visita (Itália, ficção, 1963, 105 min) M/12

Baseado num argumento de Giuseppe De Santis, o filme conta-nos a relação epistolar de uma mulher que vive numa pequena cidade de província com um livreiro romano, que sonha com um casamento, até ao dia em que a encontra. Alberto Moravia, que à época considerou como o melhor filme de Pietrangeli, notou que este “percebeu que um filme inteiramente baseado no estudo de duas personalidades necessitava de dois atores que fossem realmente bons. Sandra Milo dá-nos uma interpretação ao mesmo tempo caprichosa e realista. François Périer, com o jogo da sua fisionomia, ao mesmo tempo mutável e controlada, não poderia ser melhor”. Anúncio de Casamento (La Visita) é o segundo capítulo do chamado “tríptico feminino” da obra de Pietrangeli (os outros dois são "La Parmigiana" e "Lo La Conoscevo Bene"), mas a protagonista tem cerca de quinze anos a mais do que as personagens dos outros filmes.

Uma Vida Difícil

de Dino Risi

Dia 13-10 21h30 (PA)
Presença de Carlos Nogueira
Una Vita Difficile (Itália, ficção, 1961, 115 min) M/12

Depois da libertação de Itália, Silvio, membro da resistência, regressa a Roma, onde arranja um emprego mal pago num jornal comunista. Meses mais tarde, reencontra-se com Elena, a mulher que o salvou de um soldado alemão anos antes e por quem se apaixonou. Os dois casam-se, mas Silvio recusa abdicar dos seus ideais e valores para encontrar um emprego melhor. A precariedade das suas vidas leva Elena a abandonar Silvio. Um dos melhores filmes de Dino Risi, trata-se de um incisivo retrato da Itália do fim da guerra aos anos do boom económico, sobre a desorientação de um país a lidar com um pesado passado enquanto se precipita em direcção a um futuro confuso. Tudo isto num estilo agridoce e tragicómico, à imagem das melhores comédias italianas, e protagonizado por Alberto Sordi em plena forma, entre o sério e o jocoso.

A Mulher-Macaco

de Marco Ferreri

Dia 14-10 22h30 (Teatro Narciso Ferreira)
La Donna Scimmia (Itália/França, ficção, 1964, 90 min) M/12

Antonio (Ugo Tognazzi) é um empresário do circo, vigarista perfeito que se casa e expõe em freak shows por toda a Itália uma mulher peluda como um macaco (Annie Girardot). Um dos maiores sucessos do período inicial da obra de Marco Ferreri, o da commedia all’italiana, o filme segue os princípios que a viriam a caracterizar. Com o seu estilo anticonformista, feroz e provocador, Ferreri leva até ao fim um tema incongruente, de forma a incomodar o espectador e a confrontá-lo com as suas fraquezas e vícios.

O Imoral

de Pietro Germi

Dia 16-10 18h30 (PA)
L'immorale (Itália/França, ficção, 1967, 100 min) M/12

O violinista Sergio Masini (Ugo Tognazzi), apesar de polígamo, não é um libertino, mas sim um marido exemplar, que acumula dois lares. Casado há 18 anos com Giulia, conheceu depois uma cantora frustrada, Adele, com a qual constituiu uma segunda família, cada uma ignorando a existência da outra. Surge, porém, uma terceira fase da felicidade para Sergio, a jovem provinciana Marisa (Stefania Sandrelli), que ele conhece numa excursão. As 24 horas de cada dia tornam-se assim escassas para tanto amor e devoção, e Sergio passa a viver num clima de angústia crescente para se dedicar às três mulheres.