Cine-concertos e sessões especiais

Nas sessões de abertura e fecho e na passagem pelo Teatro Narciso Ferreira, o Close-up mostra propostas de cruzamento entre as imagens em movimento e a música, em três cine-concertos em estreia, em resposta a encomendas da Casa das Artes de Famalicão: a Berlim do final dos anos 1920, em Gente ao Domingo, por JP Simões; uma viagem musical proporcionada pelos Club Makumba em diálogo com Zombie, uma das obras-primas de Jacques Tourneur, instalado nas Caraíbas; e Samuel Úria seduzido por Yasujiro Ozu, pelas histórias de pais e filhos, em História de um Proprietário Rural, no Japão do pós segunda guerra mundial. O programa também oferece duas sessões especiais: Nova '78, de Rodrigo Areias e Aaron Brookner, sobre a contra-cultura norte-americana dos anos 1970, protagonizada por William S. Burroughs e as imagens e os sons, um filme e um realizador (Júlio Alves) em dialética com quatro críticos, em Não Desviar o Olhar.

Noite de Abertura Cine-Concerto por JP Simões

Gente ao Domingo

de Robert Siodmak e Edgar G. Ulmer

Dia 10-10 21h45 (GA)
Menschen am Sonntag (Alemanha, ficção, 1930, 70 min) M/12

Rodado com atores amadores, segue as vidas de um punhado de berlinenses ao longo de uma sucessão de domingos. A despreocupação e o lazer contrastam com as sombras perfiladas no horizonte, num filme que é um extraordinário documento sobre a “vida normal” na Berlim do final da década de vinte, uma obra seminal realizada no espírito da República de Weimar que influenciaria gerações de cineastas em todo o mundo. Gente ao Domingo, é o célebre filme cooperativo que revelou uma série de nomes de que a história do cinema iria guardar boa memória: Robert Siodmak, Edgar G. Ulmer e o aqui guionista Billy Wilder. JP Simões apresentará em estreia uma nova banda sonora.

Nova’ 78

de Rodrigo Areias e Aaron Brookner

Dia 11-10 17h30 (PA)
Nova '78 (Portugal/Grã-Bretanha, documentário, 2025, 75 min) M/16

Nova '78 mergulha na vibrante contracultura dos anos 70 através de imagens inéditas da lendária Nova Convention. O evento de três dias em Nova Iorque marcou o regresso de William S. Burroughs à América e reuniu nomes como Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Philip Glass e Allen Ginsberg. Filmado em 16mm por Howard Brookner e perdido durante décadas, o material inspirou o seu filme de culto "Burroughs: The Movie". Co-realizado por Rodrigo Areias, o filme conta com música de The Legendary Tigerman. Após a sessão, no Café Kiarostami, teremos a mesa Planeta Burroughs, com a participação de Rodrigo Areias, Dario Oliveira e Paulo Mendes.

Cine-Concerto por Club Makumba

Zombie

de Jacques Tourneur

Dia 14-10 21h00 (Teatro Narciso Ferreira)
I Walked With a Zombie (EUA, ficção, 1943, 65 min) M/12

Verdadeira obra-prima, o segundo filme de Tourneur para o produtor Val Lewton é um modelo de sugestão de terror. O tratamento fotográfico, jogando com as sombras e os medos que estas potencialmente despertam, é uma peça chave na construção da atmosfera de Zombie. Nas Caraíbas, uma enfermeira é encarregada de velar por uma mulher com uma estranha doença que a transforma em Zombie, e acaba, a pouco e pouco, por participar em estranhos rituais. Os Club Makumba apresentarão em estreia uma nova banda sonora.

O cine-concerto “I Walked with a Zombie” propõe um encontro hipnótico entre cinema clássico e música contemporânea ao vivo, através de uma nova interpretação sonora criada pela banda portuguesa Club Makumba para o filme I Walked with a Zombie, obra incontornável do cinema fantástico realizada por Jacques Tourneur em 1943. Conhecidos pela sua linguagem instrumental livre, cinematográfica e profundamente evocativa, os Club Makumba desenvolvem neste projeto uma banda sonora original executada integralmente ao vivo, explorando atmosferas que atravessam o afro-beat, psicadelismo, jazz, ritmos tribais e paisagens sonoras experimentais. A música não surge apenas como acompanhamento, mas como um novo corpo narrativo para o filme, ampliando a tensão poética e o universo onírico desta obra de culto. “I Walked with a Zombie” é um clássico singular do cinema de terror atmosférico, marcado pela sugestão, pelo exotismo caribenho e pela ambiguidade entre realidade e sobrenatural. A abordagem dos Club Makumba dialoga com essa dimensão sensorial e ritualística, criando uma experiência imersiva onde imagem e som se fundem numa performance única e irrepetível.

Club Makumba: Tó Trips (guitarra), João Doce (bateria), Gonçalo Prazeres (saxofone) e Gonçalo Leonardo (baixo e contrabaixo)

Não Desviar o Olhar

de Júlio Alves

Dia 17-10 17h00 (PA)
Presença de Júlio Alves
(Portugal, documentário, 2026, 65 min) M/12

Quatro críticos de cinema, acompanhados pela presença discreta de um realizador, analisam as origens da sua cinefilia. Com Inês N. Lourenço, Luís Miguel Oliveira, Ricardo Vieira Lisboa, Vasco Câmara e Manuel Mozos. Após a sessão, no Café Kiarostami, formar-se-á uma mesa em volta da Anatomia da Crítica.

Noite de Encerramento Cine-Concerto por Samuel Úria

História de um Proprietário Rural

de Yasujiro Ozu

Dia 17-10 21h45 (GA)
Nagaya shinshiroku (Japão, ficção, 1947, 70 min) M/12

Uma mulher viúva é forçada a tomar conta de um rapaz órfão que aparece inesperadamente num bairro de Tóquio. Embora inicialmente relutante, com o passar do tempo, a mulher acaba por se afeiçoar ao rapaz. Um conto agridoce sobre o Japão do pós-guerra, onde a regeneração e a reconstrução são as prioridades, História de um Proprietário Rural retrata alguns dos temas mais caros de Ozu – famílias fragmentadas, a melancolia do quotidiano – através do seu célebre humor e da visão terna do mundo que caracteriza a sua obra. Samuel Úria apresentará em estreia uma nova banda sonora.

A tarefa de acompanhar o filme “História de Um Proprietário Rural” com instrumentais originais é o agregar de, pelo menos, três universos que há muito me cativam: Primeiro, fazer música e tocá-la ao vivo. Segundo, o cinema do Ozu. Terceiro, aceitar desafios que preconizam a expressão “areia a mais para a minha camioneta”. Parto para a concepção desta empreitada montada nas asas do paradoxo: há que respeitar a frugalidade incisiva, terna, melancólica e oriental do grande mestre japonês, mas há também que respeitar o convite feito a este músico, tão afoito a soluções alarves, desgrenhadas, titubeantes, ocidentais. Como não ferir a perfeição do Yasujiro Ozu se lhe prego a minha carga sonora? Nem a resposta é óbvia nem o equilíbrio é fácil. Não abri mão deste desafio (areia a mais para a minha camioneta) porque é impossível voltar costas a uma obra cinematográfica que tanto estimo. É precisamente isso que me dá esta garantia: também não abrirei mão do profundo respeito.

Samuel Úria – criação de banda sonora original e interpretação de todos os instrumentos